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quinta-feira, 8 de novembro de 2012

0 O Triste Espetáculo de Isabel Jonet

Isabel Jonet, dirigente do Banco Alimentar, diz que os Portugueses se devem habituar ao empobrecimento. É normal, visto que como presidente da Federação Europeia dos Bancos Alimentares Contra a Fome, posição que ocupa desde Maio de 2012, a sua influência só aumenta e consolida através do empobrecimento e do aumento da fome tanto em Portugal como na Europa, como o demonstra o artigo ‘Quem Ganha com a Fome em Portugal‘.


Isabel Jonet na sua entrevista à Sic Notícias, a 6 de Novembro de 2012
Diz Jonet, pessoa muito rica e privilegiada, que os Portugueses ‘vão ter que aprender a viver com menos.’ Afirma que vamos ter que ‘reaprender a viver mais pobres.’ ‘Estamos sobretudo a empobrecer, realmente, mas estamos a empobrecer porque vivíamos muito acima nas nossas possibilidades.’ Afirma igualmente que ‘há toda uma concepção de vida, e de consumo, e de necessidade permanente de consumo, e de necessidade permanente de bens, para a satisfação das pessoas, e que conduz à felicidade, que não é real.’
Defende que a geração mais nova gasta demasiado porque “os meus filhos lavam os dentes com a torneira a correr… Há aqui uma maneira diferente de viver… Há toda uma reaprendizagem de vida, que ou vamos a um concerto de Rock, ou efetivamente podemos tirar uma radiografia quando caímos numa aula de ginástica… Há toda uma faixa de idade que vivem muito acima das suas possibilidade… Há que fazer uma lógica quase de doméstica, de contabilidade doméstica, se nós não temos dinheiro para comer bifes todos os dias, não podemos comer bifes todos os dias. Esse empobrecimento é pelo facto de nós estarmos habituados a comer bifes todos os dias, pensarmos que podemos comer bifes todos os dias, não podemos”. Portanto aqui está uma pessoa extremamente rica a dizer aos Portugueses que estão errados ao querer consumir proteínas animais todos os dias. Mas será que Jonet ela própria come de maneira frugal? Duvidamos sinceramente.
Atingindo um nível cada vez mais ridículo, Jonet continua: “Tínhamos pensado que poderíamos viver melhor porque estava tudo garantido, alguém havia de pagar, mas o ‘alguém havia de pagar’ deixou de poder ser assim. Porque efetivamente não há alguém que vai pagar. E porque efetivamente não há sustentabilidade na Europa para haver sempre que alguém dá para Portugal e para a Espanha… E cá em Portugal podemos estar mais pobres, mas não há miséria”. Portanto Jonet afirma que em Portugal ‘não há miséria’, mesmo sendo com mais de um milhão e meio de desempregados, com a fome e subnutrição a subir em flecha, com os suicídios a aumentar, e com cada vez mais Portugueses a não ter dinheiro para pagar luz, electricidade, alojamento, educação, etc.
Depois Jonet continua com este triste espetáculo culpando os jovens porque ainda estão em casa dos pais, dizendo que muitos nunca vão encontrar emprego, e que os seus pais muitas vezes deixam de ter dinheiro para comer porque os filhos vão a ‘concertos de Rock’, sendo a culpa também dos pais porque não souberam educar os filhos. Os insultos baseados em estereótipos constituem em grande parte a base para o ‘raciocínio’ de Isabel Jonet.
“Temos uma pobreza mais conjuntural e que faz com que apereçam pessoas sem rendimentos que não têm lugar no mercado de trabalho mesmo quando têm qualificações… O desemprego é talvez o maior flagelo que existe na sociedade Portuguesa, porque é um desemprego sem esperança. Todas as pessoas de 45, 46, 47 anos nunca mais vão ter lugar no mercado de trabalho, a menos que lancem um pequeno negócio. Porque, ou não têm lugar porque não têm as qualificações, ou não têm lugar porque mudou a estrutura de emprego. Então há que encarar que temos que mudar a maneira como olhamos para a organização da sociedade… Temos que fazer um esforço não olhando para o que vai deixar de ter como um empobrecimento, mas se calhar como uma necessidade de voltar para aquilo que é o mais básico. E não ter uma expectativa que podemos viver com mais do que aquilo que necessitamos, como estávamos a viver, porque não há dinheiro, na sociedade como em todo…”
Em conclusão, o discurso de Jonet tem todos os pilares da propaganda do Governo atual assim de como a grande parte da classe política dominante da Europa. Culpa os jovens, os desempregados, e a população em geral para o estado de empobrecimento e endividamento, esquecendo-se de abordar as desigualdades económicas e políticas. Esquece-se de mencionar a que ponto a crise da dívida advém de fraude financeira e sistemas de financiamento dos Estados que mandatam o endividamento público. No mundo de Jonet, as PPPs, os submarinos, a exploração, as mentiras dos governantes, entre outros factores preponderantes não existem. Porém, existem desempregados inúteis, Portugueses dispendiosos, pais incompetentes, jovens que nada mais fazem do que ir a concertos Rock. Pior ainda, no mundo de Jonet, não existe miséria em Portugal. Obviamente não é a proximidade para com os pobres que lhe serviu de lição. O mundo de Jonet é o mundo da classe dominante, do privilégio, da riqueza, do poder político desmesurado, dos estereótipos que nada têm a ver com a realidade. Em suma, é o mundo onde os ricos e os governantes estão isentos de culpas e onde os pobres não passam de inúteis sanguessugas. E o pior é que o diz sem a mínima gota de vergonha. Que triste espectáculo, que detestável intervenção.



Via: Movimento Sem Emprego

0 Quem Ganha com a Fome em Portugal?

A continuação e o aprofundamento da crise económica não afectam somente as dinâmicas económicas da agricultura e os hábitos alimentares dos Portugueses. A crise económica resulta igualmente numa profunda crise alimentar e a crise alimentar por sua vez afecta profundamente as relações políticas e sociais. Afinal, como afirmou Kissinger, “Quem controla a comida controla as pessoas”. E o aumento da fome em Portugal beneficia várias entidades e serve sobretudo os interesses de quem controla o fluxo dos alimentos, assim como as entidades cujo poder depende da existência de fome e subnutrição.

Uma ilustração da colheita de trigo no Egipto Antigo (Túmulo de Mennah, em Tebas). O Egipto Antigo era uma superpotência agrícola.
Desde a Antiguidade as crises alimentares demonstram a capacidade de transformar as relações de poder. Desde a génese dos impérios o fluxo de alimentos é capaz de produzir conflitos, e desde o começo da hierarquização social extrema a distribuição de comida é utilizada para apaziguar populações e recrutar seguidores. Lembremos alguns exemplos: o primeiro grande império, a Babilónia, devia o seu poder à sua supremacia agrícola, e o pagamento em géneros alimentares era prevalente. Marco António como líder do Egipto chantageou Roma com a retenção dos embarcamentos de cereais, precipitando uma crise alimentar em Roma e obrigando esta a declarar a guerra. Resumindo, a alimentação e a fome são temas inevitável e inerentemente políticos.

Tabela com os maiores produtores de trigo, em milhões de toneladas métricas. Em primeiro lugar, a União Europeia, seguida da China, da Índia e dos Estados Unidos da América. Fonte: Wikipedia (International Wheat Production Statistics)
As crises alimentares são propícias para que aqueles agentes e instituições que possuem a capacidade de produzir e distribuir comida possam consolidar e estender a sua área de influência. Podemos verificar esta mesma tendência em Portugal desde o começo da crise económica de 2008. Neste contexto, identificamos, na Europa e em Portugal, uma trindade de agentes que beneficiam com a fome: primeiro, o próprio Estado e a União Europeia; segundo, a Igreja Católica e as suas ordens religiosas; e finalmente, os grandes vendedores de alimentação. São estes os principais atores da política da fome.
Comecemos com os grandes vendedores de alimentação. Estes veem os seus lucros aumentar cada vez mais numa fase em que a fome cresce exponencialmente em Portugal. O Pingo Doce anunciou em Julho de 2012 um aumento de lucros na ordem dos 5.6%, enquanto o grupo Jerónimo Martins a que pertence o Pingo Doce vê igualmente os seus lucros aumentarem por 20%, em grande parte por causa da subida de vendas na Polónia. O Continente também vê os seus lucros aumentarem em 6%, ajudando assim o grupo Sonae a manter os seus altos lucros. Um estudo mais aprofundado sobre este assunto pode ser lido na edição de Outono de 2012 da revista Rubra, uma parte da qual pode ser lida aqui.
Por sua vez, as instituições supostamente caritativas como o Banco Alimentar também veem a sua esfera de influência crescer. O seu poder não pára de aumentar desde o começo da crise- em Maio de 2012, as doações de géneros alimentares subiram 18% em relação ao ano anterior, tendo conseguido recolher 600 toneladas de alimentos no primeiro dia de recolha. Afirma a sua presidente, em declarações à Agência Lusa, que um quinto da população portuguesa vive abaixo do limiar da pobreza, e que sem prestações sociais como a do Banco Alimentar, esta taxa seria de 40%. Estima-se que pelo menos trezentos mil portugueses não têm acesso a nutrição suficiente. À medida que a fome aumenta, aumenta igualmente a capacidade ou potencial para a extensão da influência de instituições como o Banco Alimentar, e o consenso entre estas instituições é o seguinte: a fome não tem parado de aumentar desde o começo da crise. Devemos igualmente considerar que por detrás de instituições como o Banco Alimentar residem interesses políticos estabelecidos e teias de poder ocultas.

Voluntários do Banco Alimentar
Os três diretores executivos desta instituição são Isabel Jonet, José Manuel Simões de Almeida e Sérgio Augusto Sawaya, os três católicos devotos. Por sua vez, a criação do Banco Alimentar teve a profunda influência do padre António Vaz Pinto, membro da maior ordem católica, a Companhia de Jesus. O Banco Alimentar menciona que “a sede social da nova instituição foi instalada, provisoriamente, no Centro Universitário Padre António Vieira“, sendo este último um famoso membro da Companhia de Jesus, mais conhecido como um dos enunciadores do Quinto Império.
Isabel Jonet afirmou numa entrevista às Selecções do Reader’s Digest que o Banco Alimentar “é uma grande empresa e tem que ser gerido como uma grande empresa”. Por sua vez, a distribuição de alimentos é feita por mais de um milhar de associações, a maioria das quais ou têm fortes ligações ou são diretamente ligadas à Igreja Católica. Sendo que o negócio liderado por Jonet está em clara ascensão, é compreensível que a canção  What a Wonderful World‘, de Louis Armstrong seja a sua canção favorita.

A directora do Banco Alimentar, Isabel Jonet
O Banco Alimentar por sua vez vive ora das doações do público, ora do investimento do Estado e de agentes privados. Tem igualmente uma associação com a Universidade Católica.
A ligação entre instituições religiosas e a produção e disseminação de comida não é um fenómeno moderno. Na Antiguidade como no presente, ordens religiosas e templos controlam vastas áreas de terra arável, sendo estas fundamentais para a preservação do seu poder, representando nomeadamente uma fonte de rendimento indispensável. Nos tempos modernos, a única inovação é a elevada complexidade dos mecanismos de poder. A posse de terra pelas ordens religiosa é complementada pela influência que estas têm sobre o mundo da finança. A influência do Estado sobre a população na sua condição de distribuidor de alimentos é complementada com elevadas somas em subsídios e programas de caridade. Mas mesmo se podemos dizer que a forma muda, a essência sem dúvida permanece: com o aumento da fome e da pobreza, constatamos a expansão e consolidação da área de influência de estruturas de poder e de certas instituições religiosas. Assim sendo, podemos facilmente concluir que em tempos de crise económica e carências alimentares, aqueles que controlam a comida veem-se numa posição privilegiada.
Existem vários projetos em Portugal que tentam lutar contra a fome assim como lidar com o tema da alimentação de maneiras inovadoras. Entre os mais interessantes estão o Projecto 270, que lida com a soberania alimentar, o projecto Veggiesbox que tenta levar os alimentos directamente dos locais de produção até ao consumidor sem por isso ter de passar por intermediários, e também o Portal da Agricultura Urbana e Peri-urbana que tenta cultivar a coordenação entre as hortas urbanas de Portugal.
NOTA ADICIONAL (7 de Novembro de 2012):
Uma semana depois deste artigo ser publicado, a Isabel Jonet vem confirmar algumas das críticas que nele constam ao criticar o ‘consumismo’ dos portugueses:



O seu argumento final é que ‘não há dinheiro’. Ler isto e estudar mais sobre a ‘moeda fiat’ para se poder perceber a que ponto é que tal afirmação é falaciosa. O problema não é nem nunca será a ‘falta de dinheiro’ porque o dinheiro hoje em dia é emitido sem valor adicionado, sendo portanto dinheiro simbólico que se pode emitir arbitrariamente, sendo a inflação excessiva o único verdadeiro entrave. O problema de pobreza advém da má distribuição de riqueza e de poder político.
 

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