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domingo, 25 de agosto de 2013

0 Tens tatuagens? Não vás ao Hospital de Cascais

No processo de liquidação do Serviço Nacional de Saúde em curso, alguns hospitais aqui da Parvónia vão-se destacando em casos que só não podem ser designados como sendo de mera incompetência porque são intencionais – ou seja, determinados pelas administrações, no cumprimento de ordens vindas «de cima» –, mas também de pura negligência médica e…
E, pior ainda, do mais revoltante fascismo social. Nisso, dando razão a Michel Foucault, quando o filósofo apontava este tipo de estabelecimentos de saúde como espaços concentracionários, não muito diferentes das prisões e dos quartéis.
Um desses hospitais campeões em incompetência planeada, negligência e fascismo social é o de Cascais. Surpreendidos? Não fiquem: Cascais é terra de Tios e Tias e por aqui está-se a revalorizar cada vez mais essa coisa a que se chama Estatuto Social.
Ou seja, se sais da norma de comportamento estabelecida pela burguesia bem instalada – e, com a crise, enriquecida, porque a desgraça coletiva anda a beneficiar esta gente de Cascais como nunca antes, com um visível aumento do número de Ferraris e Lamborghinis a circular pela Marginal –, bem podes sofrer sérias consequências por isso.
Foi agora o que aconteceu com a Lipa, namorada do meu filho Lourenço. Triste decisão a deles de terem deixado a sua casa em Lisboa a fim de virem morar para Carcavelos. Poucos dias depois de se terem mudado e já estão a comer pela calada.
Eu explico: acontece que a Lipa é body piercer num centro comercial. Logo, tem tatuagens da cabeça aos pés. Tal como o Lourenço, tatuador e ele também body piercer, com atividade profissional em Carcavelos.
Acontece também que a Lipa está com uma infeção urinária que tem resistido à medicação, sendo que esta, como se tal não bastasse, lhe provoca grave indisposição. Cheia de dores logo após a mudança de casa, foi de madrugada, acompanhada pelo Lourenço, ao Hospital de Cascais.
E o que encontrou neste? Logo para começar, o pior dos tratamentos por parte da equipa médica das Urgências, que devido ao seu aspeto físico (tatuagens, piercings, roupas, etc.) logo a determinou como toxicodependente (não é, escusado seria dizer) e a tratou como nem se tratam os animais.
Tiraram sangue à Lipa, pensando esta que para verificarem o estado da sua infeção. Mas não, não foi esta a análise a que se procedeu, mas à de HIV. Os médicos partiram do preconceituoso princípio de que, se a jovem estava tatuada, era por ser uma marginal com sida.
A realização da análise que era realmente necessária foi por eles recusada. Tem de ir ao hospital onde foi diagnosticada, o de S. José – disseram eles –, para trazer as análises que já realizou e levá-las ao médico de família. Que a Lipa agora não tem, precisamente porque mudou de residência e de concelho.
Voltou para casa sem assistência médica, às dores nos rins e à febre alta se acrescentando a dor da humilhação. Apenas porque, simplesmente, além de cumprir as ordens ministeriais de não fazer despesas, o Hospital de Cascais não gostou que ela não tivesse simplesmente uma borboleta na omoplata direita, como é habitual entre as dondocas locais que se divertem a mostrar os bonecos respetivos nas partys.
No dia seguinte o Lourenço teve de a deixar sozinha para se deslocar ao Hospital de S. José a fim de, na sua inocência de jovem, pedir as tais análises. Em Lisboa disseram-lhe o que vocês já devem estar a suspeitar: que teria bastado ao Hospital de Cascais um pedido formal para eles imediatamente lhes passarem os dados.
Explicaram: esse tipo de informação passa-se de hospital para hospital, de médico para médico. Não lhe posso dar a si as análises, Cascais é que tem de as solicitar. O facto de não o terem feito só revela má vontade, disseram ao meu filho.
Até que o casal se meteu a caminho, outra vez, do hospital, mas desta vez com a minha companhia, para garantir que não fossem recebidos novamente como cidadãos de segunda. Enfim, de nada lhes valeu a não ser eu chamar uns nomes a quem estava por perto e apontar tudo o que estava a suceder no Livro de Reclamações.
Os argumentos eram, segundo a enfermeira da Triagem, de que «os sistemas informáticos dos dois hospitais são incompatíveis» e, segundo a médica que atendeu a Lipa, de que «não temos contactos com S. José», como se nunca tivesse sido inventado o telefone.

Mas olhe que você está melhor
, comentou a dita clínica à rapariga. Melhor? Mas melhor com que termo de comparação, se a única análise que ela tinha à frente era a da sida?
Pois, se ainda tinham dúvidas de que este Governo tem por objetivo destruir o sistema de saúde público, e se não queriam acreditar que o fascismo está aí outra vez a definir quem é e não é socialmente aceitável, aqui fica uma história – deve haver muitas outras – a provar o contrário.
Tens tatuagens à vista? Pois não vás ao Hospital de Cascais se não quiseres ver a tua dignidade espezinhada. Por ali não se pratica nem humanidade, nem o juramento hipocrático, nem o que é suposto que o SNS faça. O que se pratica é a arrogância de um sistema que te esfrega na cara a condenação de que és lixo.
A Lipa lá ficou na cama, a chorar de dores e de raiva. E eu aqui estou a fazer a única coisa que (ainda?) posso fazer: contar o que aconteceu.

FONTE
 

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