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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

0 A CHANTAGEM DOS BANQUEIROS

O Governo festejou com tal entusiasmo o “regresso aos mercados”, ou seja, aos empréstimos, que quem estivesse menos atento até era capaz de supor que o país alcançou uma vitória capaz de alterar do dia para a noite a vida dos portugueses. E, todavia, não é nada disso o que se passa. Nada de muito diferente vai acontecer -  e o que acontecer até será para pior -  se a actual política não for radicalmente alterada.

Este “regresso aos mercados” de um país mergulhado numa espiral recessiva, com quase um milhão de desempregados, com milhares de falências anunciadas para juntar aos milhares que já tiveram lugar e com taxas de decrescimento económico cada vez mais assustadoras, tanto no ano que passou como no que agora começa, também serve para demonstrar quão irracionais são esses ditos “mercados”. É certo que eles têm o lamiré deixado pelo BCE de que aceita, mediante o cumprimento de certas condições, garantir, em última instância, os títulos da dívida pública dos Estados da zona euro. E é também óbvio que a quantia hoje arrecadada constitui uma gotícula quando comparada com a capacidade de “absorção” do BCE, mas nem por isso deixa de ser óbvio que um país que está a decrescer economicamente e que praticamente não cresceu nos últimos doze anos jamais terá capacidade para pagar uma dívida que atingirá durante os próximos dez anos números incomportáveis.

E esse é que é o grave problema de Portugal. Ir aos “mercados” mas continuar a agravar as condições de vida dos portugueses pode ser muito sedutor para os bancos mas não será certamente a solução que o país espera.

Dizem os apoiantes do Governo que este é o primeiro passo para uma inversão da situação. Nada na política do Governo aponta nesse sentido. Pelo contrário, tudo vai no sentido de um maior agravamento das condições de vida dos portugueses resultante de milhares de despendimentos anunciados na função pública, de novos cortes nos salários e nas pensões, de drásticas reduções no serviço nacional de saúde e no ensino, bem como nas prestações sociais. Ora nada disto constitui uma vitória dos portugueses, como eles agora dizem. É uma derrota, uma grande derrota, que exige uma desforra à altura. 

Esta política é a política dos banqueiros e dos credores. Não é seguramente a política que interessa ao comum das pessoas. Prova disso é o entusiasmo que o FMI não é capaz de disfarçar ao analisar o que se passa em Portugal e nos demais países em crise quando, apesar do desemprego, da recessão e das suas graves repercussões sobre a generalidade das pessoas comuns, deixa escapar o seu contentamento dizendo que o optimismo paira no ar como o demonstram os mercados financeiros. Sim, é isso mesmo: foram os “mercados” que geraram a crise e foram esses mesmos mercados financeiros que mais lucraram com ela, ficando em consequência dela numa situação nunca antes acontecida na história do capitalismo - mais ricos, mais poderosos, mais dominadores do que antes. Antes, as crises do capitalismo arrastavam para a falência as empresas que as causavam ou obrigavam-nas um a um longo período de recuperação. Hoje, dada a hegemonia do capital financeiro e o seu completo domínio sobre o aparelho de Estado, acabam por ser os contribuintes a restaurar e a fortalecer ainda mais as empresas financeiras mediante transferências brutais de rendimentos do trabalho para o capital financeiro. 

Depois da satisfação que o FMI não conseguiu esconder, nada melhor para avaliar o contentamento deste “regresso aos mercados” do que as declarações sincronizadas dos banqueiros portugueses. Desde Mira Amaral, cujo banco que dirige foi recentemente prendado pelo Estado com um negócio de favor, passando pelo BANIF e pelo BCP, até ao Espírito Santo de Salgado todos eles vieram pôr “o povo em guarda” contra qualquer hipótese de crise política. Ou seja, vieram chantagear os portugueses deixando pairar a ideia de que uma crise política acarretaria consequências terríveis para o seu futuro.

Esta crise e este tempo que vivemos são muito diferentes de todos os demais. É uma crise que não se resolverá com pequenas medidas nem com retoques de circunstância. Este constante aprofundamento do fosso entre uma ínfima minoria que arrecada a maior parte do produto e a esmagadora maioria que vê, a todos os níveis, continuamente degradada a sua situação só se resolve com mudanças profundas que atinjam o centro do poder económico. Impossível? Também era impossível acabar com o absolutismo real na Europa e acabou-se. Também era impossível acabar com o nazismo na Alemanha ou, mais impossível ainda, derrotar Hitler e derrotou-se. E os exemplos poderiam multiplicar-se.

Esta crescente desigualdade que o moderno capitalismo financeiro e o neoliberalismo vêm consolidando desde há mais de trinta anos encerra em si e nas suas múltiplas consequências todas as condições para gerar profundas convulsões sociais nos países desenvolvidos. A situação económica da imensa maioria está continuamente a agravar-se na América, tem-se agravado imenso nos países periféricos da Europa e acabará também por atingir os mais ricos, como já está a acontecer no Reino Unido. A “machadada” que, de uma forma ou de outra, todos eles se preparam para dar no Estado Social – que é o essencial do pacto que tem assegurado a paz interna e evitado a confrontação entre os países – vai necessariamente gerar consequências que "eles" supõem estar em condições de evitar. Mas não estarão. É certo que tudo isto leva tempo a interiorizar, mas depois de a mecha pegar fogo ninguém mais o vai conseguir extinguir.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

0 Negócios em família Regresso aos Mercados

O extraordinário sucesso - de propaganda - do regresso aos mercados tem como intermediárias quatro instituições financeiras. O Barclays, a Morgan Stanley, o Deutsche Bank e o BES. O Barclays foi um dos bancos intervencionados pelo Governo inglês depois da crise 2008 - tendo beneficiado das ajudas estatais para apresentar lucros logo nesse ano- e nos últimos anos tem andado envolvido em esquemas finaceiros duvidosos por todo o lado. O Morgan Stanley também foi resgatado em 2008 pela Reserva Federal americana, tendo lucrado bastante com a crise das dívidas soberanas na Europa. O Deutsche Bank foi o banco que, indirectamente, provocou o resgate ao sistema bancário irlandês - grande parte da dívida dos bancos irlandeses em 2008 era detida por este banco (operações descritas no livro "Boomerang", de Michael Lewis). Em 2012, foi descoberto que ocultou perdas de 12 000 milhões de dólares para evitar o resgate pelo Governo alemão - os resgates feitos desde 2008 na Alemanha implicaram sempre controlo estatal dos bancos, uma "inconveniência" que não se verifica por cá. Já o BES, conhecido como o banco do PSD, tem sido associado nas últimas semanas a crimes de colarinho branco. Um dos seus dirigentes, José Maria Ricciardi, foi constituído arguido, e o presidente Ricardo Salgado visitou duas vezes o DIAP para prestar declarações em dois processos diferentes.
Ontem corria a notícia de que o Governo espanhol pretendia que gestores indiciados por corrupção ligada ao sistema financeiro pudessem voltar a ocupar cargos em instituições bancárias. Recentemente, foi contratado pela Bolsa um antigo dirigente do BPN que trabalhou de perto com Dias Loureiro e Oliveira e Costa. Um extraordinário sucesso, sem dúvida. E também se fica a compreender por que razão as notícias sobre corrupção no BES têm sido bastante discretas. Sendo o banco um dos parceiros privilegiados do Governo nos seus negócios, não conviria sujar uma imagem que, de resto, é perfeitamente imaculada. Tudo está quando acaba bem. Na Sicília é assim: os negócios são sempre um assunto de família.
por Sérgio Lavos/Arrastão
 

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